Chove.
Sob um telhado barulhento, dorme-acorda um homem amante.
Ali, no recanto quente de uma cama fria, ele fecha os mesmos
olhos que viveram atentos e alertas ao engodo de um outro...
Sobre si tem, além das roupas de cama, o enfado da mesmice
que assolara aos Homens do seu tempo e dos quais se fizera rodear.
Ainda ali, com os lábios risonhos de sempre, ele chora...
Escondido muito mais de si do que dos outros - é de um outro que
ele foge, de um outro nele - esse homem pensa...
Esse homem-metade grita num pranto que verte a água
Ele, porém, está gélido tal qual seu coração minguante.
A maldade chegara à sua porta.
O homem que vejo treme, isolado num recanto... desencantado.
Esse homem não cita palavras graciosas, não anuncia as bem
aventuranças que outrora proferia, ele está mudo, mudo de si,
esse homem só vê ao passo em que descrê, descrê das muitas
Não é tristeza o que esse homem sente, é ciência de uma
vivência enganada, e esse silêncio não é vazio; é a constatação
das muitas vagas palavras profanadas por outrem em um tempo outro.
Aquele tremor, o tremor destacado é o medo do passado,
pavor de um passado presente em aprendizados.
O passado o ameaça. Como sabê-lo?
Seus pés estão frios, não pela friagem de uma noite como essa,
mas frios pelo ímpeto de querer fugir de tudo que não viveu;
Esse cantinho da cama, o mais quente existente, é o lugar onde
esse homem está a agradecer e a louvar pelo achado de Hoje.
Esse homem está se preparando para dar passos grandiosos,
esse silêncio é em reverência à sorte que os deuses lhe mandaram.
Um homem que, de tão feliz, aquieta-se.
Escolhe, num mundão fabuloso em que vive, um cantinho seu,
silencioso, e ali ele ri e faz reluzir em si, olhinhos que se
Esse homem desencantado está eufórico por poder
Sua quietude é divina, e cá está meu protagonista
Movimentos, passado, barulho, falas exacerbadas, exageros
Venta.
Ele se recolhe mais, encolhe os joelhos até o pescoço,
O vento vindo gela ao passo em que aquece uma alma desolada
O mundo que o cerca é secundário ao mundo centrado no
Seu quarto está escuro e ali, só, esse homem está orquestrando
Marcilon Oliveira.


